O que é poema comparativo a si mesmo

O que é poema comparativo a si mesmo

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    Mais uma Quinta Gramatical começando e o tema de hoje é um combo! São duas das figuras de linguagem mais famosas (e mais fáceis): comparação e metáfora.

    A comparação é autointitulada; nada mais é do que a analogia entre palavras com o uso de termos comparativos, tendo o objetivo de explicitar características similares entre os termos escolhidos. Por exemplo:

    De sua formosura
    deixai-me que diga:
    é tão belo como um sim
    numa sala negativa

    - João Cabral de Melo Neto

    Já a metáfora é uma comparação implícita, em que um significante (i.e, palavra) substitui outro em determinado contexto, sem se utilizar de termos comparativos. Metáforas estão muito presentes em expressões populares, como "dar murro em ponta de faca" e "morto de fome".

    Exemplo de metáfora na literatura:

    Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer.
    É um não querer mais que bem querer; é um andar solitário entre a gente; é nunca contentar-se de contente; é um cuidar que ganha em se perder.
    É querer estar preso por vontade; é servir a quem vence, o vencedor; é ter com quem nos mata, lealdade.
    Mas como causar pode seu favor nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor.

    - Luís Vaz de Camões


    Esse famoso poema de Camões é composto quase que inteiramente de metáforas, salvo pela última estrofe; cada verso tenta definir o que é o Amor, usando-se de imagens cotidianas e nenhuma conjunção comparativa.

    E essa foi a quinta gramatical dessa semana, espero que tenham entendido e até a próxima.



    O que é poema comparativo a si mesmo

    FERNANDO PESSOA E A QUESTÃO DO EU: UMA COMPARAÇÃO AO MITO DO ENDEMONINHADO GADARENO

    “E perguntou-lhe: Qual é teu nome? E lhe respondeu, dizendo: Legião é o meu nome, porque somos muitos.”

    (BÍBLIA SAGRADA, livro de Marcos, cap.5, versículo 9)

    Num único corpo, numa única voz, se concentrava um demônio que se dizia chamar Legião, porque na verdade eram muitos. Na lenda bíblica, o habitante de Gadara (cidade da antiguidade) dava espaço em seu organismo para que inúmeras forças coexistissem de uma só vez e o possuíssem. Um único ser, capaz de amontoar em seu interior as energias demoníacas múltiplas: poderíamos pensar assim sobre Fernando Pessoa? Fernando Pessoa, Legião é seu nome, porque são muitos. Nesse caso não estamos falando de forças divinas e satânicas, não estamos entrando no mérito da inspiração poética como possessão, mas sim de uma força criativa que se manifesta em tantos nomes, e mais do que isso: em personalidades e histórias. A partir disso, qual seria o verdadeiro Fernando Pessoa? Sua verdadeira voz? Surge o problema do sujeito. A legião de heterônimos confunde e se expressa, embora esteja habitando um único corpo: dominado pela imaginação frutífera, pela necessidade da escrita e alta compreensão do potencial literário os sujeitos tomam forma e expressam um problema único: a necessidade, de assim como o espírito de gadareno, ser exorcizado, porém, nesse caso, através de versos.

    Octavio Paz (1965), em seu ensaio intitulado “O desconhecido de si mesmo - Fernando Pessoa” já anunciava um poeta que não se conhece, que através de seus heterônimos busca compreender o sentido do eu.

    Seu segredo, ademais, está escrito em seu nome: Pessoa quer dizer persona (pessoa) em português e origina--se de persona, máscara dos atores romanos. Máscara, personagem de ficção, nenhum: Pessoa. Sua história poderia reduzir-se ao trânsito entre a irrealidade de sua vida cotidiana e a realidade de suas ficções. Estas ficções são os poetas Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e sobretudo o próprio Fernando Pessoa.

    (PAZ, 1965, págs.201,202)

    Ao falar sobre a realidade de suas ficções, nessa citação, Paz nos convida a pensar nos heterônimos de Pessoa como sua própria verdade e, pensando no mito do habitante gadareno, é como se a possessão fosse a verdade, que a condição de se transfigurar em muitos constituiria o que é conhecido como Fernando Pessoa, a construção ficcional mais sincera que o próprio real. Paz (1965, p. 201) diz: “Nada em sua vida é surpreendente - nada, exceto seus poemas.” e por essa razão, para que se pense a questão do eu e a questão de se colocar como outro em fingimento é necessário que se olhe para os próprios poemas de Fernando Pessoa e seus heterônimos. O pensamento do que é o eu, da expressão de um outro e a complexidade de tentar se encontrar e se entender são temas centrais da obra do poeta português. Aqui foram selecionados um poema de cada heterônimo (Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos) e do ortônimo (Fernando Pessoa). Comecemos então com o poema ortônimo “Como inútil taça cheia”:

    Como inútil taça cheia

    Que ninguém ergue da mesa,

    Transborda de dor alheia

    Meu coração sem tristeza.



    Sonhos de mágoa figura

    Só para ter que sentir

    E assim não tem a amargura

    Que se temeu a fingir.



    Ficção num palco sem tábuas

    Vestida de papel de seda

    Mima uma dança de mágoas

    Para que nada suceda.

    Nesse poema, o eu-lírico se vê numa situação em que o próprio coração não sente, pois só pode transbordar a dor alheia. A verdade deste coração se encontra justamente no fingimento, num corpo em que nada sucede - exceto a ficção. Como se comunicasse com a poesia moderna, esse “eu” se pronuncia quase numa voz rimbaldiana “je est un autre” , se não fosse pela separação entre seu vazio e sua ficção. Em Rimbaud, o eu e o ele se fundem e se constituem de um único tempo verbal. A ficção de Pessoa está num palco sem tábuas, ou seja, essa ficção flutua e, mais do que isso: mima. Imita, representa um movimento não interferindo no que esse eu é ou não é. Um movimento um tanto quanto paradoxal, já que o mesmo coração que não sente, transborda, mas o que ele transborda é uma necessidade de criação, de máscara e persona, voltando a pensar em Paz. A própria biografia, o sentimento do que poderia vir a ser o “próprio poeta” se perde, não interessa: o que interessa é a figuração do outro.

    O próximo poema também traz a questão do eu. Sob heterônimo de Alberto Caeiro, o mestre de todos os outros, o poeta fala sobre a aparência das coisas e sua essência:

    Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.

    Mudo, mas não mudo muito.

    A cor das flores não é a mesma ao sol

    De quando uma nuvem passa

    Ou quando entra a noite

    E as flores são cor da sombra.

    Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.

    Por isso quando pareço não concordar comigo,

    Reparem bem para mim:

    Se estava virado para a direita,

    Voltei-me agora para a esquerda,

    Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés –

    O mesmo sempre, graças ao céu e à terra

    E aos meus olhos e ouvidos atentos

    E à minha clara simplicidade de alma...

    (Alberto Caeiro)

    O eu-lírico do poema de Caeiro afirma que apesar de não parecer ser o mesmo, basta observar as circunstâncias para que se perceba um mesmo ser. “A cor das flores não é a mesma ao sol / De quando uma nuvem passa / Ou quando entra a noite / E as flores são cor da sombra. /Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.” Faz uma comparação ao reflexo das iluminações nas flores, para que possamos compreender que embora sua aparência mude: são sempre as mesmas flores. Além disso, Caeiro sendo considerado o mestre dos heterônimos, parece carregar uma constância, poderíamos dizer até uma “verdade”, um eu que diz não mudar muito: se sabe que não muda, é porque sabe o que é. Essa consciência de si poderia vir de sua simplicidade, do fato de estar conciliado com a natureza e o fato de “não acreditar em nada, apenas existir” (PAZ, 1965, p. 209) - a realidade do corpo “graças ao céu e à terra / E aos meus olhos e ouvidos atentos”, entretanto esse poeta faz uma pausa para se pensar: dedica um poema para debater a essência, o eu, a mudança - é um assunto caro ao poeta, é um eu-lírico que embora diga que se conheça tenta explicar-se e, ao explicar-se: conhecer-se. Por essa razão não só Pessoa, mas Caeiro, Reis, Álvaro de Campos: são poetas que apresentam o problema do sujeito, mesmo que de diferentes formas.

    Em Ricardo Reis, como apresenta o poema “Sim, sei bem” ser é uma ideia:

    Sim, sei bem

    Que nunca serei alguém.

    Sei de sobra

    Que nunca terei uma obra.

    Sei, enfim,

    Que nunca saberei de mim.

    Sim, mas agora,

    Enquanto dura esta hora,

    Este luar, estes ramos,

    Esta paz em que estamos,

    Deixem-me crer

    O que nunca poderei ser.

    (Ricardo Reis)

    A ideia de “eu”, nesse poema de Ricardo Reis, constitui-se na possibilidade do momento e do imaginar-se.: Enquanto dura esta hora, / Este luar, estes ramos, / Esta paz em que estamos, / Deixem-me crer / O que nunca poderei ser. O eu-lírico afirma que nunca saberá de si mesmo, saber: ter conhecimento de si. Apesar disso, quer ter o direito de crer, de ter a ideia do que ele acredita que nunca será. O ser, portanto, é a própria idealização, o objetivo. Esse eu-lírico quer poder imaginar, diferente de Caeiro que sabe como as coisas são e que o existir importa mais do que a preocupação do futuro de Reis. Mas, ao preocupar-se com o futuro, Reis aceita sua condição. Existe uma aceitação das circunstâncias e do próprio não-ser.

    Entre a consciência e a preocupação, há o sujeito que sente: Álvaro de Campos. E o sujeito que sente muito, tenta entender o que sente, tenta se ver no outro, tenta se entender - entra num conflito existencial. Álvaro de Campos, no seu poema “Tabacaria” se questiona de forma filosófica sobre sua existência:

    Tabacaria

    [excertos]

    (...)

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

    Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!



    Entre tantas possibilidades no mundo, a sinceridade de Campos vem ao afirmar não se conhecer. Não saber quem é esse eu, essa voz que diz e que pensa. Ele se compara a outros, pensa em si como ser minúsculo diante de tanto.

    Crer em mim? Não, nem em nada.

    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente

    O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,

    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.

    Álvaro de Campos, o poeta das sensações não quer acreditar em si, pois não acredita em nada. É o “eu” que olha para “Esteves sem metafísica” e pensa no quanto as pessoas se perdem na multidão e no fato de não pensarem. E ele, de dentro do quarto, escreve versos para dizer ao mundo que não pode acreditar em si mesmo. Para Álvaro de Campos, o “eu” se perde para sentir tudo que puder sentir como em seu poema “Sentir tudo de todas as maneiras”. Apesar disso, parece haver uma salvação na poesia em “Tabacaria”: “Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei /A caligrafia rápida destes versos,” nesse trecho, o eu-lírico conclui que apesar daquilo que não pode ser, há algo que ficará: a sua criação poética. Talvez nesse ponto, podemos pensar na voz de Fernando Pessoa, que se apresenta sobretudo como uma voz ficcional - é através dela que as coisas fazem sentido.

    É um corpo possuído: Fernando Pessoa está endemoninhado pela sua legião de heterônimos. O ‘eu’ em caos se apresenta em Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Não há resposta para o problema do sujeito: a resposta é a própria dúvida, a própria procura, porque é através da dúvida que se escreve - levantando questões em forma de poemas. “O verdadeiro Pessoa é outro” (PAZ, 1965, p. 202) um outro, desconhecido de si mesmo, porque a possessão oculta o verdadeiro eu. Mas Pessoa não precisa de um salvador, não precisa de um Messias que o cure ou o exorcize: ele é o próprio Deus, o próprio criador, - afinal, como diz Paz (1965, p. 207) a diferença entre o neurótico possuído e o criador é que o criador transforma suas obsessões - Pessoa: sofre as obsessões, mas aproveita da sua condição para exorcizar a si: na escrita. Através da escrita, libera as legiões de demônios, lança versos ao mar.

    “[...] E saindo aqueles espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manada se precipitou por um despenhadeiro no mar (eram quase dois mil) e afogou-se no mar.”

    (BÍBLIA SAGRADA, livro de Marcos, cap. 5, versículo 13)

    REFERÊNCIAS

    BÍBLIA SAGRADA. O endemoninhado gadareno. Tradução de João Ferreira de Almeida. São Paulo: Sociedade Bíblica do Brasil, 2007, p. 819.

    PAZ, Octavio. Desconhecido de si mesmo - Fernando Pessoa. In: Signos em Rotação. 1965, p. 201-220.

    RIMBAUD, Arthur. Lettre du voyant. Disponível em: https://fr.wikisource.org/wiki/Lettre_de_Rimbaud_%C3%A0_Paul_Demeny_-_15_mai_1871 Acesso em: 23 de agosto de 2020.